Dentre todas as características que podem ser atribuidas aos seres humanos, apenas cinco são capazes de fazer com que eu me entregue e me encante com esta espécie tão desprezível.
1. A visceralidade. Pessoas concisas, que conseguem se mostrar plenas mesmo com toda sua podridão latente.
2. A sensibilidade. Toda a capacidade de percepção dos lugares e pessoas ao seu redor. Imagens, gostos, cheiros, toques e sons. E conseguir se entregar a isso tudo, sem pensar muito.
3. A puerilidade. Um tom infantil e lúdico. Implicâncias bobas e repetidas. Brincadeiras idiotas. Ingenuidade e futilidade com propriedade.
4. A vivacidade. Sorrisos sinceros. Gritos instantâneos de felicidade. Ânimos quentes e presentes.
5. A crueldade. Críticas, ironias e sarcamos na sua melhor qualidade. Sinceridade direta e objetiva. Pessoas sujas e transparentes.
Não tem ninguém que me freqüente, seja lá de que maneira, que não se encaixe em pelo menos uma dessas categorias.
sábado, 23 de dezembro de 2006
terça-feira, 19 de dezembro de 2006
Banquete
Sentou-se à mesa. Comeu tudo que pôde. Desde as vagens verdes e frescas colhidas pelo avô esclerosado até as orelhas e patas de porco, cozinhadas como verdadeiros quitutes pela avó suada e corpulenta. De acompanhamento, um arroz branco, velho e borrachudo, repleto de ameixas secas gordas e gosmentas (a avó confundira uvas passas com ameixas secas). Serviu colheres gordas deste. Num silêncio estéril, fartou-se. Repetiu o prato, nas mesma proporções. Aquelas patas suínas afogadas num molho aguado e amarronado casavam perfeitamente com a textura do arroz, das ameixas e com o sabor vazio das vagens, cozidas às pressas. Para beber, leite. A avó usara o resto da água do poço para ferver as partes do porco. E o que sobrou para beber foi o resto do leite do café da manhã. Um pouco talhado, mas delicioso. De sobremesa, uma abundância de enlatados que o avô trouxera da venda da cidade. Figos e pêssegos, principalmente. A calda grossa das frutas se assemelhava ao molho do porco. A cor, principalmente. Levou a colher à boca. Percebeu que a semelhança parava por ali. Um sabor azedo ocupou todos os poros da língua. Num ímpeto, procurou pela validade dos doces nas embalagens das latas. Era de se esperar que um senhor de 80 anos, esclerosado e mal informado não tivesse idéia de que esses modernos produtos enlatados têm validade de duração. Se bem que 4 meses para um enlatado não é muito. E além do mais, parecia apetitoso. Insatisfeito, fartou-se com o azedo dos doces.
E num desespero afobado terminou a refeição. Agora contabilizava dentro de si 7 orelhas e 13 patas de porco, 51 vagens, 758 gramas de arroz, 334 ml de leite talhado, 9 ameixas secas, 2 latas de figo e 5 de pêssego em calda. Exatemente. Não poderia estar mais satisfeito.
Foi para a rede cochilar e fazer a digestão. Sentia-se pleno com o bucho cheio e estufado de tanta diversidade e higiene. Caiu no sono. Ao acordar, logo nos primeiros segundos em que se encontrava desperto e consciente, sentiu um mal estar insuportável e pesado dentro de si.
Aí então percebeu: preenchera o estômago com tudo aquilo que repugnara a vida toda.
Num ímpeto desesperado, enfiou a mão inteira goela abaixo, na tentativa de vomitar aquele mundo sujo de agonias, frustrações, maldades e angústias, ingeridas e absorvidas com um prazer sádico.
Mas agora era tarde: a digestão já estava feita.
E num desespero afobado terminou a refeição. Agora contabilizava dentro de si 7 orelhas e 13 patas de porco, 51 vagens, 758 gramas de arroz, 334 ml de leite talhado, 9 ameixas secas, 2 latas de figo e 5 de pêssego em calda. Exatemente. Não poderia estar mais satisfeito.
Foi para a rede cochilar e fazer a digestão. Sentia-se pleno com o bucho cheio e estufado de tanta diversidade e higiene. Caiu no sono. Ao acordar, logo nos primeiros segundos em que se encontrava desperto e consciente, sentiu um mal estar insuportável e pesado dentro de si.
Aí então percebeu: preenchera o estômago com tudo aquilo que repugnara a vida toda.
Num ímpeto desesperado, enfiou a mão inteira goela abaixo, na tentativa de vomitar aquele mundo sujo de agonias, frustrações, maldades e angústias, ingeridas e absorvidas com um prazer sádico.
Mas agora era tarde: a digestão já estava feita.
Assinar:
Postagens (Atom)